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A mobilidade a pé como solução pós-pandemia

A agenda da sustentabilidade na vida urbana tem direcionado as políticas de planejamento da mobilidade em busca de formas de deslocamento que não comprometam o meio ambiente, ou seja, que não emitam gases tóxicos, não ocupem demasiadamente os espaços públicos e ainda reduzam o tempo perdido nos deslocamentos. Dessa forma, surgiu o conceito de Cidade Compacta.

Trata-se de uma forma mais inteligente de utilizarmos os espaços urbanos, de maneira a encurtar distâncias e otimizar usos. Na Cidade Compacta, os espaços são intensamente utilizados para todas as atividades urbanas. Morar, trabalhar, estudar, comprar, cuidar, se divertir, tudo acontece em pontos muitos próximos em áreas densamente ocupadas, para que eventuais necessidades de deslocamento possam ser supridas pela mobilidade ativa, seja a pé ou por bicicleta, e onde a racionalização de uso dos espaços públicos exija a priorização do transporte coletivo.

Cabe agora refletirmos como estes conceitos se aplicam na realidade pós pandemia, em que ainda não saibamos como terminará o enfrentamento ao Covid, ou até mesmo se ele terminará. Só sabemos que, independentemente do que acontecer, a vida não será a mesma. Cuidados sanitários e de higiene, tão presentes nas diretrizes do desenho urbano há mais de um século, retornam com força total, acompanhados por novos comportamentos sociais influenciados pelo uso da máscara e pelo distanciamento social.

Nesse contexto, o conceito de Cidade Compacta e Sustentável se vê ao mesmo tempo valorizado e ameaçado. De um lado, essa realidade que aponta o transporte público coletivo como um dos ambientes com maiores índices de contágio, abrindo caminho para um maior uso do transporte motorizado individual. Por outro lado, a busca por opções individuais de deslocamento também tem impulsionado a adesão ao uso da bicicleta, com registro para um aumento de 118% nas vendas desses equipamentos em julho em relação ao ano passado, segundo dados da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike). Mas e quanto ao deslocamento feito a pé? Como fica no pós pandemia?

Se o desenho urbano for influenciado por maiores distanciamentos, as cidades correm o risco de se espraiarem e estimularem tipos de mobilidade cada vez menos sustentáveis, como apontado anteriormente.

Por outro lado, a mobilidade por bicicleta, que tem lugar de destaque no conceito de Cidade Compacta, continua sendo prestigiada nos tempos de pandemia e recomendada como uma forma de não contágio. Entretanto, não é uma alternativa viável para todas as pessoas pertencentes aos grupos de risco como idosos, diabéticos e cardíacos. Nem todos têm condições de pedalar no dia a dia.

Assim, cabe refletirmos sobre a grande importância da mobilidade a pé como a solução mais abrangente e democrática para a mobilidade pós pandêmica. Todos podem e devem praticá-la como forma de combater o sedentarismo, responsável pelas doenças mais comuns no grupo de risco. Deslocamentos de até três quilômetros cabem perfeitamente numa caminhada realizada entre meia hora e quarenta minutos, tão recomendada para preservar boas condições de saúde.

Cabe aos tomadores de decisão efetivamente priorizarem a caminhada, oferecendo a infraestrutura necessária e diretrizes de política pública de mobilidade urbana, intensificando ainda os investimentos para adequação das cidades brasileiras a essa nova realidade, com maior largura de calçadas e faixas de travessia, maior tempo de travessia e menor tempo de espera nos pontos semaforizados, estimulando junto aos condutores a prática de uma das mais importantes atitudes cidadãs que é a priorizarização do pedestre. Só assim teremos as tão sonhadas cidades saudáveis e sustentáveis.

Conteúdo originalmente produzido pela Cidades21 para o especial da paraondevamos.com, da 99. Clique aqui para ler na íntegra.

Meli Malatesta
É mestre e doutora em Mobilidade Não Motorizada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e autora dos livros “Pé de Igualdade” (Ed. Prisma, 2018) e “A Rede da Mobilidade a Pé” (Ed. Annablume, 2018). É professora convidada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e trabalhou por 35 anos na CET (Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo), participando e coordenando políticas e planos para pedestres e ciclistas. É idealizadora e presidente da Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos) e autora do blog Igualdade a Pé do portal Mobilize.

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