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A volta ao jardim: a nova Champs-Élysées

Vista aérea da proposta para a nova Champs-Élysées

No último domingo a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, anunciou que a Avenida Champs-Élysées, entre o Arco de Triomphe e a Praça de la Concorde, será transformada, até 2030, em um “jardim extraordinário”¹. Para tanto foi destinado um orçamento de 230 milhões de euros. A obra nasceu do pleito do Champs-Élysées Committee, associação que reúne moradores, trabalhadores e comerciantes da Avenida. A proposta se alinha com o projeto original da Avenida, concebido em 1666 por André Le Nôtre, o notável paisagista da corte de Luís XIV. Ao longo da história a Champs-Élysées foi modificada e ampliada, e se transformou em um dos símbolos da França, palco de comemorações cívicas como em 1944, diante da libertação da França após a ocupação nazista, e manifestações políticas e culturais. Ao longo do século XX tornou-se um distrito de negócios de alto dinamismo, lugar que sedia alguns dos mais importantes escritórios corporativos da Europa, lojas altamente sofisticadas, e um tráfego de 3.000 veículos por hora.

Este quadro gerou uma degradação do ambiente da Avenida, que a partir dos anos 1980, com o crescimento vigoroso do turismo internacional, se transformou em pesadelo para a maioria dos parisienses. Duas pesquisas realizadas em 2019 puderam verificar o distanciamento entre a Avenida e os habitantes de Paris. A primeira constatou que apenas 5% dos pedestres que circulam pela avenida são parisienses. Na segunda, ao serem perguntados quais adjetivos se aplicariam à Champs-Élysées, predominaram os aspectos negativos: turística, barulhenta, artificial, estressante, perigosa, envelhecida e suja. Não por acaso, o presidente do Champs-Élysées Committee, Jean-Noël Reinhardt, afirma que é “preciso modernizar, desestressar e encorajar os parisienses a voltar”².

O responsável pelo projeto desta enorme transformação, é o escritório francês PCA-Stream, criado pelo arquiteto Philippe Chiambaretta. Contando com a colaboração de uma vasta equipe transdisciplinar, eles desenvolveram sua proposta a partir do conceito de Cidade Metabólica, no qual a cidade é compreendida como um ecossistema, vivo e complexo, de interrelações. A estrutura operacional da proposta é composta por cinco camadas urbanas: natureza, infraestrutura, mobilidade, usos e edifícios. Para Chiambaretta a correta interação destas camadas permitirá a transformação da cidade, de modo a torná-la “mais sustentável, atraente e inclusiva”³. 

A Camada da Natureza: à esquerda situação atual, à direita a proposta para 2030

A proposta prevê uma forte redução na circulação de veículos na região. O tráfego de veículos, em Paris, caiu 3% em média, por ano, desde 2002. A expectativa é que este processo se acelere nos próximos anos. Das oito faixas dedicadas aos carros disponíveis atualmente, restarão apenas 4. Deste modo haverá mais espaço para os pedestres e 8 vezes mais áreas permeáveis do que atualmente. No caso da Praça de la Concorde, serão criados 15 mil metros quadrados de pisos permeáveis, hoje inexistentes no local. O espaço dedicado aos carros será reduzido em 70%, o que permitirá que a Praça deixe de ser uma barreira rodoviária entre o Jardim des Tuileries e a Champs-Élysées. Este mesmo processo ocorrerá nos Jardins d’Élysées. A Avenida Winston Churchill, que fica entre o Petit e o Grand Palais, assim como a Praça Clemenceau e a ponte Alexandre II serão pedestrializadas, o que permitirá uma nova forma de conexão com a Esplanada des Invalides, outra área verde importante na cidade. A área abrigará novos usos como equipamentos esportivos, restaurantes, bares e cafés de caráter mais popular, com oferta de menus mais baratos do que os disponíveis atualmente. Além disso, o número de bancos na região crescerá fortemente.

Diagrama de mobilidade da Praça de la Concorde: à esquerda situação atual, à direita a proposta para 2030

Deste modo, surge uma imensa área verde configurada como uma espécie de sinapse urbana, que permite a conexão de espaços até então desarticulados pelas estruturas rodoviárias existentes, e que passam a ser totalmente acessíveis aos pedestres, transformados em prioridade para o desenho urbano. Uma visão contundente do que pode ser uma cidade neste século XXI, e que certamente ajudará na recuperação da área perante a opinião dos parisienses.

São Paulo pode muito aprender com esta experiência parisiense, a começar pela força das associações de bairros e distritos. Ainda que tenhamos exceções vigorosas, os bairros paulistanos carecem de uma representação mais expressiva e atuante, capaz de poder definir os reais interesses de determinada comunidade. Criar novos espaços de discussão e ampliar o contato entre as pessoas que moram, trabalham e circulam nos bairros paulistanos é tarefa fundamental e inadiável. Esta dimensão comunitária é sempre muito difícil de ser alcançada nas grandes metrópoles. Porém, sem elas restam apenas as propostas dos grupos mais organizados e poderosos, no setor público e privado, que, em geral, não têm sido capazes de atender as demandas da maioria da população. Um dos fatores que poderiam colaborar para a construção de comunidades mais potentes é a qualificação e ampliação do espaço público em São Paulo. E também aqui a proposta parisiense pode nos ajudar a construir novas sendas.

Proposta de conexões e ampliações das áreas verdes

O desmonte, ainda que parcial, das estruturas rodoviárias existentes na Champs-Élysées, permitirá o surgimento de novos espaços públicos de convívio, ambientalmente qualificados. Este gesto pode representar uma verdadeira revolução urbana em São Paulo, cidade na qual as infraestruturas rodoviárias foram implantadas de modo autoritário, desconsiderando as delicadezas e características do tecido urbano e das relações sócio-culturais da cidade. Este processo fez com que boa parte da memória da cidade fosse perdida. Rios e florestas foram destruídos para dar passagem aos veículos, cuja lógica de ocupação do espaço reina soberana na cidade. A abertura da Paulista aos pedestres, e o fechamento, e possível desmonte do Minhocão, mostram que este reinado está fragilizado. Existem muitas áreas que podem ver diminuídas as suas estruturas rodoviárias em favor de um espaço mais generoso com os pedestres, as árvores, a vida, desde o centro até a periferia da cidade. Com a diminuição dos carros seria possível a criação de corredores verdes e multi-funcionais, que poderiam conectar e ampliar as áreas verdes paulistanas. Espaços de convívio, de manifestações políticas e culturais, que qualificam o trabalho, o morar, e potencializam o sentido comunitário favorecendo os encontros dos múltiplos personagens urbanos. Certamente não conseguiremos em 10 anos transformar a cidade em um jardim extraordinário, atraente e inclusivo. Mas o debate que esta proposta sugere, pode e deve ser iniciado, de modo a permitir a construção de uma visão própria sobre o futuro de São Paulo.

¹ LE MITOUARD, Eric. Paris : Anne Hidalgo promet un «jardin extraordinaire» sur les Champs-Elysées. Le Parisien, Paris: 11 de janeiro de 2021. Disponível em https://www.leparisien. fr/ paris-75/paris-anne-hidalgo-promet-un-jardin-extraordinaire-sur-les-champs-elysees-11-01-20 21-8418444.php. Acesso em 13 de janeiro de 2021.

² WILLSHER, Kim. Paris agrees to turn Champs-Élysées into ‘extraordinary garden’. The Guardian, Londres: 10 de janeiro de 2021. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2021/jan/10/parisapproves-plan-to-turn-champs-elysees-into-extraordinary-garden-anne-hidalgo. Acesso em 13 de janeiro de 2021.

³CHIAMBARETTA, Philippe. Champs‑Élysées, History and Perspectives. Paris: PCA-STREAM, 2020. Disponível em: https://www.pca-stream.com/public_data/download/projet/1583248853/ce-exhibitpress-release.pdf. Acesso em 13 de janeiro de 2021.

Marcos Costa
Arquiteto formado pela FAU Mackenzie com mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas pela FAU USP, é coordenador e docente do curso de Arquitetura da FAAP -SP. Atua desde 1995 na área de Projeto de Edificações e Urbanismo. Faz parte do escritório Borelli & Merigo que atua nos mais diversos setores de urbanismo. Seu currículo engloba o projeto de revitalização da Praça Roosevelt em São Paulo, edificações governamentais e projetos que valorizam os conceitos de sustentabilidade e de humanização.

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