Mobilidade

Como a pandemia ocasionou a valorização dos carros e dos espaços públicos

Reprodução Lerone Pieters

Conforme a pandemia se prolonga, especialistas demonstram preocupação cada vez maior quanto à continuidade dos transportes públicos. A busca por segurança resultou em uma queda significativa do uso de transportes como ônibus e metrô ao redor do mundo. Nesse cenário, como evidencia a reportagem Riders Are Abandoning Buses and Trains. That’s a Problem for Climate Change, publicada pelo The New York Times, a procura por carros usados nos Estados Unidos e Índia aumentou. O investimento em automóveis em detrimento do transporte público intensifica a emissão de gases poluentes, interferindo na qualidade do ar. 

Com a queda no número de passageiros, a arrecadação dos transportes públicos também diminuiu, dificultando o investimento necessário para que as frotas funcionem de forma eficiente e segura. Mohamed Mezghani, chefe da Associação Internacional de Transporte Público, defende que expandir as faixas de ônibus e melhorar os sistemas de ventilação dos transportes são formas de atrair os antigos usuários. 

Em reportagem para o Le Monde Diplomatique Brasil,  David Tsai e Felipe Barcellos, pesquisadores do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), citam o  documento publicado pelo Ministério das Cidades em 2016, “Indicadores de efetividade da Política Nacional de Mobilidade Urbana”, que aponta que 94% da receita do transporte por ônibus em 15 municípios com mais de um milhão de habitantes provém do pagamento de tarifas, de forma que é extremamente difícil buscar soluções que não impactem no preço das passagens. 

Os pesquisadores ainda reforçam a necessidade de investir no transporte público após o fim da pandemia, com a adoção de tecnologias veiculares não poluentes, aumento da oferta para evitar lotação e revisão dos modelos de custeio do transporte, a fim de evitar a intensificação da escolha do uso do automóvel. 

A quarentena foi estabelecida pela primeira vez na cidade de São Paulo no dia 24 de março de 2020. A medida tomada para conter a disseminação do vírus da covid-19 resultou em taxas de isolamento de cerca de 55% nos primeiros dias após o decreto. 

O isolamento social e a instauração do trabalho remoto provocaram uma diminuição significativa do trânsito e do congestionamento nas cidades. Uma pesquisa realizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em parceria com o aplicativo de mobilidade Waze revelou que entre os dias 23 e 29 de março de 2020, o tráfego no Brasil sofreu uma queda de 70%. 

Mesmo após a flexibilização de algumas medidas de isolamento, uma parcela das empresas continuou investindo no home office. Segundo reportagem publicada pelo Estadão, pesquisa realizada pela consultoria Cushman & Wakefield, apontou que a expectativa é de que 74% das multinacionais que atuam no Brasil saiam da pandemia com um índice de adoção do home office superior ao que tinham no início do isolamento social. 

A adoção do trabalho remoto contribui com o impacto na mobilidade urbana sustentável, uma vez que a diminuição da circulação de veículos nas ruas significa a diminuição da emissão de carbono, além da otimização do uso da energia e do tempo. 

Em um contexto em que evitar aglomerações é essencial, o transporte público se tornou uma questão amplamente debatida pelos governos e sociedade civil. Foi necessária a implementação de medidas, como o aumento de frotas, a fim de garantir o distanciamento social. Esse tipo de ação, apesar de fortemente defendida pelas autoridades de saúde, não perdurou em razão do impacto nos índices de arrecadação causados pela diminuição do número de usuários. Em junho de 2020, a Prefeitura de São Paulo reduziu a frota de ônibus em quase 9%

As circunstâncias da pandemia evidenciaram a importância da valorização dos espaços públicos, de forma que a priorização de pedestres e ciclistas se tornou peça chave no combate à disseminação do vírus. Conforme texto publicado no WRI Brasil, o urbanista tático, Mike Lydon, realizou um levantamento das práticas que visam esse reconhecimento pelo mundo. Barcelona, na Espanha, instaurou ciclovias temporárias, enquanto Dublin, na Irlanda, fechou pistas em ruas movimentadas para conceder o uso aos pedestres, visando aumentar a área de calçada e garantir o distanciamento seguro. 

Beatriz Lopomo
Beatriz é estudante de jornalismo da Universidade de São Paulo e possui grande interesse por temas relacionados à cultura e urbanismo. Publicou textos para a empresa júnior de jornalismo da USP e realizou projetos nos núcleos de assessoria e audiovisual. Em seu tempo livre, produz conteúdo sobre moda no Instagram.

Deixe uma resposta