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Do cultivo à mesa: como gerar alimentos mais baratos e mais renda nas grandes cidades?

Reprodução Joao Vitor Marcilio/Unsplash

Não é apenas a inflação que contribui para a escalada de preços dos alimentos. A covid desorganizou a produção e os sistemas de abastecimento das cidades. Além desse enorme problema, as mudanças climáticas ameaçam vários cultivos. A estiagem deste ano já comprometeu as safras de soja, milho, feijão, café e laranja, para citar algumas.

E se fosse possível mudar a lógica de produção e aproximar as áreas produtoras dos locais de consumo? E se isso permitisse também beneficiar pequenos produtores rurais que vivem em regiões metropolitanas? A boa notícia é que sim, estamos falando de cenários bastante tangíveis. Foi o que constatou o estudo “Mais perto do que se imagina: os desafios da produção de alimentos na metrópole de São Paulo”, realizado por parceria entre o Instituto Urbem e Instituto Escolhas.

Os dados indicam que os 60 mil hectares que já são cultivados na região metropolitana de São Paulo poderiam produzir verduras e legumes suficientes para abastecer 20 milhões de pessoas por ano e criar 180 mil postos de trabalho. Dessa forma seria possível também encurtar distâncias entre produtores e consumidores, reduzir perdas e melhorar a eficiência da distribuição de alimentos.

As áreas analisadas trazem revelações interessantes: a maioria (65%) é de agricultura familiar e 86,4% têm até 20 hectares. Esse perfil de pequena propriedade emprega 74,8% da mão de obra e produz 60,8% do Valor Bruto de Produção, o equivalente a R$ 433 milhões.

Em um momento em que o desemprego assombra milhões de brasileiros, a agricultura de pequena escala apresenta grandes soluções. E isso não só pela geração de renda, mas também por sua capacidade de aliviar a fatia do gasto com alimentação no orçamento doméstico dos produtores. No Brasil, 17,5% do que as famílias ganham são destinados à compra de comida, dos quais 10% são reservados para frutas, verduras e legumes.

Se a pandemia permitiu uma reflexão mais aprofundada sobre nossos hábitos alimentares, também pode impulsionar o debate sobre a lógica (e a falta dela) nas cadeias de distribuição e seu respectivo impacto no preço dos alimentos. A Agricultura Urbana e Periurbana (AUP) otimiza espaços e mão de obra existentes para enfrentar problemas graves e urgentes. Conectar produtores e consumidores é trazer uma nova perspectiva social e econômica com grandes benefícios para a segurança alimentar, a saúde, o ambiente e a vida urbana.

Philip Yang
Philip Yang é fundador do Instituto Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole), centro que busca promover projetos de impacto urbano e de busca de cidades melhores, voltados ao poder público, setor privado e sociedade civil. É mestre em Administração Pública pela J.F. Kennedy School of Government, Harvard University. Serviu como diplomata de carreira do serviço exterior brasileiro entre 1992 e 2002. É formado em Música na Academia Superior de Música Franz Liszt (Budapeste). Foi membro dos conselhos de cidades em São Paulo e Rio de Janeiro e atua como membro de conselhos em diversas instituições voltadas ao debate sobre arquitetura e urbanismo no Brasil.

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