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Laboratório de ação direta para a mobilidade a pé: a chance de tirar suas ideias do papel

Créditos: Unsplash
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A mobilidade ativa é definida como prioridade na agenda das cidades sustentáveis. Isso é demonstrado, especialmente, em âmbito global, nas Agendas 2030, Urbana e do Clima, no ODS 11: Cidades e Comunidades Sustentáveis, e nos âmbitos Nacional e local, na Política Nacional de Mobilidade Urbana e nos Planos Municipais de Mobilidade Urbana. Com base na pesquisa da Associação Nacional de Transportes Públicos (2017), estima-se que 40% dos brasileiros se deslocam exclusivamente a pé. Se incluídos os 28% dos deslocamentos diários em transporte coletivo — que sempre possuem um trecho também a pé no início e/ou final do deslocamento (first e last mile) —, os deslocamentos a pé chegam a 68% do total.

A mobilidade a pé fala sobre a condição do movimento de pedestres pelos espaços públicos, pelos espaços das cidades, em seus diferentes contextos. Apesar de ser o meio de transporte mais inclusivo, saudável, econômico e com menor impacto ambiental, ele é ainda o mais negligenciado: as más condições da infraestrutura e de serviços públicos prejudicam a acessibilidade e segurança (pública e viária). Mesmo que o arcabouço legal brasileiro evidencie a prioridade aos pedestres e a necessidade de planejamento da rede de mobilidade a pé, ainda são tímidos os avanços que podem ser contabilizados diante do quadro de mudanças necessárias que precisam ser enfrentadas (Vasconcellos, 2012). Este desafio deve ser abordado combinando transformações nos parâmetros ambientais e urbanos e investimentos diretos em infraestrutura, enfatizando a combinação de transporte público e transporte ativo. Neste processo, ressalta-se o papel dos mecanismos de governança participativa, para acompanhamento na elaboração e monitoramento de políticas públicas, atividade que muitas vezes é realizada por organizações da sociedade civil (Cruz e Paulino, 2019).

Nesse contexto, o Como Anda surgiu em 2016 e, em sua primeira fase, com apoio do Instituto Clima e Sociedade, o projeto correalizado pelas organizações Cidade Ativa e Corrida Amiga, buscou entender o estado da arte e da mobilidade a pé no Brasil e pactuar um plano de ação em conjunto com as organizações mapeadas para atuação no tema. Na sua segunda fase (2017-2018), o plano de ação definido como resultado da etapa anterior indicou três eixos de atuação: fortalecimento das organizações atuantes em mobilidade a pé no Brasil e engajamento da pauta e articulação do movimento. Na terceira fase do projeto, de junho de 2019 a maio de 2020, objetivou-se identificar e analisar experiências nacionais que influenciaram ações, projetos ou políticas públicas voltadas para os deslocamentos a pé. A terceira fase teve como um dos principais desdobramentos a publicação “Andar a pé eu vou: caminhos para a defesa da causa no Brasil” disponível para download, que contou com a colaboração de mais de 100 indivíduos e organizações. Ele reúne uma série de experiências nacionais voltadas para a valorização dos deslocamentos a pé e traz em detalhe as principais estratégias, táticas e ferramentas que os grupos utilizaram nos estudos de caso para fortalecer o tema na agenda política.

Assim, no intuito de levar o Como Anda “para as ruas”, na quarta fase do projeto, que atualmente também tem o apoio das organizações Caraminhola e CalçadaSP ,  é desenhado o  Lab.MaP – Laboratório de ação direta para a mobilidade a pé, uma oportunidade para reunir diferentes atores locais e envolver governo, sociedade civil, universidade e empresas para cocriarem ou fortalecerem, conjuntamente, soluções em defesa e de fomento à mobilidade a pé no Brasil. Organizado em quatro fases – teórica, ferramental, prática e comemoração, o programa oferecerá suporte e mentoria de uma rede de profissionais e organizações atuantes em áreas distintas, de março a julho de 2021, para que grupos participantes tirem suas ideias do papel.

O Lab.MaP buscará potencializar e capacitar organizações que atuam pela mobilidade a pé; fortalecer a atuação em rede – multissetorial e interdisciplinar; disseminar conhecimentos e aprendizados adquiridos pelo Como Anda, ao longo dos anos de atuação do projeto; e materializar e testar ações e mudanças em pequena escala – praça/rua/bairro, em prol da mobilidade a pé.

Serão aceitas inscrições de todas as regiões do Brasil, de grupos já formados ou em processo de formação, que tenham atuação local ou nacional. Lembre-se: o mais importante é que você tenha afinidade com o tema e queira defender a mobilidade a pé. Há muitas formas de você se engajar.

No site www.comoanda.org.br/lab-map  há mais detalhes sobre a chamada e o formulário para inscrever sua ideia! As propostas serão aceitas até o dia 07/03/2021 às 23h59 (horário de Brasília).

Sobre o projeto Como Anda

Como Anda é o ponto de encontro de organizações que promovem mobilidade a pé no Brasil, fruto de uma parceria entre as organizações Cidade Ativa, Corrida Amiga, CalçadaSP e Caraminhola com apoio do iCS (Instituto Clima e Sociedade) e tem o objetivo de criar um ambiente fértil para o empoderamento desses grupos, disponibilizando dados e disseminando informações sobre iniciativas e projetos e promovendo oportunidades para trocas e parcerias.

Referências:

COMO ANDA. (2016). Mobilidade a pé: Estado da Arte do Movimento no Brasil. São Paulo: Como Anda.

COMO ANDA (2020).  Andar a pé eu vou: caminhos para a defesa da causa no Brasil.

CRUZ, S. S. e PAULINO, S. R. (2019). Desafios da mobilidade ativa na perspectiva dos serviços públicos: experiências na cidade de São Paulo. Urbe Revista Brasileira de Gestão Urbana, 1-19.

VASCONCELLOS, E. A. (2012). Mobilidade urbana e cidadania. Rio de Janeiro: SENAC Nacional.

Silvia Stuchi
Idealizadora do Instituto Corrida Amiga e pós-doutoranda, com enfoque na mobilidade ativa, do Programa de pós-Graduação em Sustentabilidade da EACH-USP (Universidade de São Paulo), bacharel em Gestão Ambiental, pela mesma instituição e Mestre e Doutora em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Realizou estágio de doutorado sanduíche no Centre Lillois d´Etudes et Recherches Sociologiques et Economiques (Clersé-USTL), à l´Université des Sciences et Technologies de Lille 1. Foi Pesquisadora visitante do VTT Technical Research Centre of Finland.

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