Arquitetura e Mercado

O futuro do urbanismo e da arquitetura na cidade da pós-pandemia

Crédito: Rikki Chan/Unsplash

Roma não foi construída em um dia nem as cidades foram moldadas na primeira pandemia. Dos espaços públicos aos ambientes domésticos, políticas higienistas para combater a proliferação de doenças foram e continuam sendo grandes influências no urbanismo e na arquitetura dos nossos centros urbanos.

Exemplos não faltam para confirmar a teoria. Foi durante a cólera, no séc. XIX, que os esforços para garantir água limpa fizeram o desenho de quadras e ruas em Londres se tornar mais retilíneo para acomodar os longos canais subterrâneos embaixo da terra. Já no início dos anos 1900, a proliferação da tuberculose e da gripe espanhola moldou o que viria a ser o banheiro domiciliar moderno nos Estados Unidos, trazendo o cômodo para dentro de casa e substituindo as banheiras e vasos sanitários de madeira por materiais mais fáceis para a limpeza, como metais e esmaltados.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, uma reforma urbana a cargo do prefeito Pereira Passos se espelhava nos moldes europeus para destruir cortiços e instalar grandes avenidas para carros na capital. Alguns anos mais tarde, na década de 30, a questão da densidade e o combate aos “germes mórbidos” também marcariam presença no modernismo de Le Corbusier, reforçando a predileção por espaços abertos, iluminação natural e largas vias conectoras. O movimento arquitetônico, que criou raízes fortes no Brasil, culminaria na construção da capital Brasília.

Com tamanha influência das epidemias no traçado das cidades, resta agora saber o que o coronavírus deixará de legado. Epidemiologistas preveem que, sem uma vacina, o vírus continuará presente nos próximos meses ou anos, restringindo e transformando muitos dos espaços urbanos aos quais estamos tão habituados. O que podemos esperar daqui pra frente?

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Espaço nas ruas
Mudanças nos espaços públicos já são discutidas por urbanistas, a começar pelas calçadas. Em Nova York, o mapa interativo Sidewalk Width NY foi criado para informar aos usuários a largura dos passeios pela cidade e demonstrar se as dimensões possibilitam ou não o recomendado distanciamento social. Com a maioria dos bairros iluminados em vermelho e laranja, indicando a insuficiência desses espaços, a metrópole americana tem um grande desafio à frente. Não por acaso, durante o pico da pandemia, o prefeito Bill de Blasio chegou a fechar mais de 64km de vias para carros como forma de ceder seu uso para os pedestres.

Em São Paulo, um levantamento realizado pelo jornal Folha de S. Paulo em 2019 mostrou 41% das calçadas paulistanas não possuíam a largura mínima de 1,90 metro prevista pela atual legislação. Embora muito tenha sido discutido sobre os modais de transporte na cidade durante a pandemia, com novas medidas de rodízio sendo aplicadas para reduzir drasticamente o uso de veículos, os riscos para os pedestres seguem ainda sem solução.

Tornar as calçadas adequadas para o distanciamento social é ainda um desafio para muitas cidades. Crédito: Yuri Catalano/Unsplash

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Áreas verdes
Com o mundo vivendo em isolamento social, poder sair e aproveitar o ar fresco nunca foi tão importante – e tão ferozmente contestado. Isso porque, com a falta de oferta ou o mau dimensionamento de parques e praças para atender a população, o risco de aglomeração pelas pessoas logo culminou no fechamento desses espaços.

Com o fim do lockdown em algumas cidades da Europa e da Ásia, prefeituras tentam adaptar locais que antes viviam cheios. Na China, onde o vírus surgiu no final do ano passado, a abertura de áreas públicas e turísticas veio seguida de algumas restrições, como o uso de máscaras, limitação de visitantes e obrigatoriedade de distanciamento social.

Já são muitos os escritórios de arquitetura especulando como será a vida ao ar livre no mundo pós-coronavírus. O estúdio austríaco Precht ousou ao projetar um parque público labiríntico, dividido por vegetações altas que permitiriam às pessoas aproveitar o ar livre sem desrespeitar o distanciamento social. Na Itália, o escritório SBGA Blengini Ghirardelli desenvolveu o C’entro, uma estrutura modular feita de fibra de vidro colorida que se encaixa delimitando um círculo no chão para até duas pessoas se sentarem dentro. Na pequena Vicchio, perto de Florença, os arquitetos do Caret Studio criaram uma intervenção visual em uma das praças históricas da cidade para destacar as novas dinâmicas sociais esperadas daqui pra frente. Com um grid de 1,8m de distância, valor sugerido para o distanciamento social, a instalação já está sendo desenvolvida também para cinemas, igrejas e academias.

Espaços públicos de lazer, como praças e parques, precisam ser melhor distribuídos e dimensionados para evitar aglomerações. Crédito: Robert Bye/Unsplash

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Novas arquiteturas
Em meio a tantos questionamentos sobre os impactos da pandemia nas cidades, é inevitável não pensar também no papel e na resiliência da arquitetura. Com estádios se transformando em hospitais de campanha, a adaptabilidade dos espaços construídos e a escolha por estruturas rápidas e flexíveis prometem influenciar as construções futuras. Na primeira edição do Podcast Cidades 21, discutimos sobre as alternativas construtivas usadas por muitas cidades para enfrentar a pandemia.

Com muitas das doenças, incluindo o coronavírus, sendo transmitidas especialmente pelo contato com superfícies contaminadas, a tecnologia poderá ser outro fator decisivo para conceber os novos edifícios. É o caso do projeto assinado pelo escritório de Zaha Hadid para a empresa de resíduos Bee’ah, nos Emirados Árabes. Desenvolvido para ter “caminhos sem contato”, tudo foi pensado para que os funcionários evitassem o toque por meio elevadores controlados pelo smartphone e portas que se abrem via reconhecimento facial.

Os complexos corporativos também estão na mira de mudanças. Se até hoje tínhamos amplos planos abertos de escritórios e uma grande densidade de mesas próximas umas das outras, arquitetos apostam que daqui pra frente empresas se organizarão em ilhas de funcionários, corredores mais largos e ambientes com janelas mais generosas para ventilação.

Nos Estados Unidos, a empresa de serviços imobiliários Cushman & Wakefield está testando um novo conceito de design chamado Six Feet Office para adaptar o retorno dos funcionários aos postos de trabalho. Entre os critérios estabelecidos, o modelo sugere que escritórios contem com rotas visuais para cada equipe nos pisos e paredes, de forma a manter as pessoas a um metro e meio de distância.

Mudanças nos layouts de escritórios são esperadas para reduzir a proximidade entre os funcionários. Crédito: LYCS Architecture/Unsplash

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Dentro de casa
Há ainda quem acredite que os edifícios de escritórios estão com os dias contados devido aos novos hábitos da quarentena dentro de casa. Como home office ou academia improvisada, a flexibilidade e multifuncionalidade dos ambientes serão algumas das apostas da arquitetura nos próximos anos, colocando em xeque o tradicional modelo de microapartamento.

Além de metragens mais generosas para atender as novas atividades dentro de casa, a importância de espaços privados ao ar livre para a saúde e o bem-estar dos moradores é outra questão a ser analisada. Além de serem opções de lazer, áreas condominiais como hortas comunitárias e pátios internos podem ser de grande ajuda para fortalecer o sentimento de comunidade e vizinhança, tão caro em períodos de isolamento.

Em países como o Brasil, porém, onde mais de 3 milhões de casas contam com 3 ou mais moradores dividindo um cômodo, a discussão dos espaços comuns dá lugar aos esforços de urbanistas e gestores públicos para atender o grande déficit por moradia digna. São nas favelas e nas periferias, onde a densidade e a precariedade das construções se tornam um risco para a contaminação do coronavírus, que o número de óbitos pela doença tem disparado.

Alta densidade e irregularidade das casas são alguns dos maiores empecilhos para o cumprimento das recomendações de higiene e isolamento nas periferias. Crédito: Milo Miloezger/Unsplash

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Tempos de mobilização
Agentes fundamentais para a transformação das cidades, arquitetos e urbanistas têm muito a contribuir para o debate. O renomado escritório britânico Foster + Partners descobriu um jeito de entreter crianças em meio à quarentena, e vem propondo uma série de desafios arquitetônicos para os pequenos. Chamada de #architecturefromhome, a iniciativa propõe atividades que incluem a construção de edifícios ou cidades de papel.

No Brasil, a campanha Juntos Somos + Arq tem unido arquitetos e designers de interiores para apoiar iniciativas solidárias em todo o país. Em Milão, a prefeitura tem convidado profissionais para criar dispositivos de distanciamento social em bares, lojas e espaços públicos. A ideia vem logo depois de uma chamada feita pela ONU e a Organização Mundial da Saúde (OMS), pedindo que profissionais da indústria criativa façam cartazes e campanhas visuais para divulgar conselhos de saúde durante a pandemia.

Construções emergenciais de saúde, módulos de atendimento móvel e protocolos para transformar espaços em postos de atendimento são alguns dos outros projetos desenvolvidos por arquitetos  para colaborar no combate ao coronavírus. Com toda ajuda sendo bem-vinda, o que não faltam são oportunidades para contribuir.

Campanha nas redes sociais #architecturefromhome propõe atividades e brincadeiras para crianças. Crédito: Foster + Partners
Carolina Junqueira
Formada em Arquitetura e Urbanismo, escreve sobre cidades, arquitetura, design e artes visuais. Teve passagens pela revista Bamboo, portal Arkpad e foi colaborada da plataforma Esquina.

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