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Pandemia desafia o transporte: apenas 20% dos usuários de ônibus ainda rodam

@ Lucio Dorneles

Somente 20% do total de usuários de ônibus do país continuam se deslocando em linhas de coletivos. O dado é da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) e dá a medida do cenário preocupante para prefeituras, empresários e funcionários do setor e para a própria lógica do transporte público. Desde o surgimento dos primeiros casos de coronavírus, ônibus e vagões lotados se tornaram sinônimo de risco de transmissão da doença. Quem não conseguiu ficar em casa preferiu se deslocar de carro, a pé ou de bicicleta do que se expor a aglomerações.

Para cumprir as recomendações dos órgãos de saúde, proteger motoristas e cobradores e tentar atrair mais usuários, os ônibus estabeleceram uma distância mínima entre passageiros. Sentar um ao lado do outro ou viajar em pé se tornaram situações a serem evitadas. “O distanciamento social nos obrigou a ter mais ônibus nas ruas, enquanto o número de usuários despencou. A conta não fecha. É um dos setores mais afetados pela pandemia”, diz Gilberto Perre, secretário-executivo da FNP.

Uma das propostas de auxílio em tramitação no Congresso Nacional prevê a compra de passagens antecipadas, seja por empresas ou pelo setor público, para serem distribuídas eletronicamente aos usuários de ônibus e utilizadas fora dos horários de pico, quando o isolamento social for flexibilizado. Outra ideia é incluir passagens como parte do coronavoucher, o auxílio de R$ 600 distribuído pelo governo federal a trabalhadores informais, bem como integrar o cardápio de benefícios de outros programas sociais.

A Medida Provisória 936 tem ajudado as viações a determinar reduções de jornada e salários de seus funcionários, mas isso não encerra o problema. O custo com combustível continua e não há previsão de quando o serviço irá recuperar a média de passageiros. Mesmo antes da pandemia, o setor sempre foi fortemente dependente de subsídios municipais — o que, em tempos de vacas magras, torna-se motivo de inquietação sobre sua viabilidade no médio prazo.

Encruzilhada

De todos os meios de transporte disponíveis, o ônibus já vinha apresentando o pior custo benefício. Com tarifa a 4,40 reais em São Paulo, imprevisibilidade de horários, itinerários confusos e pouco atraentes, insegurança e desconforto na espera e no interior dos veículos, além da poluição causada, é cada vez mais difícil defender o sistema atual. A mais recente pesquisa Origem Destino divulgada pelo Metrô de São Paulo corrobora a tese de que o ônibus vive uma encruzilhada. Em 2007, ele representava 23,7% das viagens. Em 2017, 20,7%, queda de três pontos percentuais.

A mesma pesquisa mostra que a fatia dos aplicativos cresceu um ponto percentual, indo de 0,2% para 1,2%. Como a pesquisa não contabiliza as viagens por aplicativo que começam ou terminam em estações de metrô e trem, pois só o modo principal foi tabulado, pode-se imaginar que o número real de usuários seja bem superior a esse. Há ainda o agravante de os dados terem serem colhidos em 2017, sem captar o aumento deste mercado nos últimos anos. Importante dizer que a proporção de automóveis se manteve estável (27,3) e de trem e metrô aumentou (2,1% para 3,1% e de 5,8% para 8,2%, respectivamente).

Assim como os aplicativos, os ônibus são um meio bastante comum de se chegar a estações de trem e metrô ou de sair delas para alcançar o destino final, a chamada última milha. Mas estes itinerários pouco consideram a demanda dos usuários. Já a bordo do aplicativo pode-se ter a certeza de se estar percorrendo o melhor trajeto possível naquele momento, facilidade oferecida pelos sistemas de navegação em tempo real como o Waze.

Previsibilidade, conforto e preço também fazem a balança pesar a favor dos carros compartilhados. Tanto é que, em várias partes do mundo, serviços como os oferecidos por Uber, 99 e Cabify são acusados de causarem um aumento no número de viagens e consequente piora nos congestionamentos. Em São Paulo, a pesquisa Origem Destino revela um aumento de 9% nas viagens entre 2007 e 2017, totalizando 41,4 milhões de viagens.

Para evitar que a facilidade se converta em mais congestionamentos, é preciso apostar em compartilhamento, com mais passageiros em cada veículo, dividindo os mesmos trajetos. Com isso os aplicativos, ficam cada vez mais parecidos com os… ônibus. Só que menores, mais ágeis, eficientes e baratos.

Na China e nos Estados Unidos, empresas gerenciam frotas de minivans atendendo a usuários sob demanda e substituindo trajetos até então oferecidos por ônibus do sistema público. A questão é saber de que maneira e sob quais regras o setor privado pode prover um serviço historicamente público. Se o carro já deixou de ser um veículo individual, será que os ônibus devem deixar de ser exclusivamente públicos?

Mariana Barros
Sócia-fundadora da Cidades 21, atuou por sete anos na editora Abril onde foi subdiretora de Brasil da revista Veja, autora do blog Cidades Sem Fronteiras (Veja.com), apresentadora do Veja Entrevista e repórter de Veja São Paulo. Anteriormente, foi repórter da Folha de S. Paulo, enviada especial a Nova York, San Francisco e Las Vegas (EUA) e a Xangai (China). Venceu o Grande Prêmio Folha com o projeto DNA Paulistano e é coautora do livro homônimo lançado pela Publifolha (2009). Foi editora das revistas especializadas Arquitetura e Urbanismo (aU) e Wish Casa e cofundadora da plataforma Esquina. Foi articulista do jornal O Estado de S. Paulo e é colaboradora do Estadão/MediaLAB.

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