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Pandemia traz queda recorde nas emissões, mas será que isso garante nosso futuro?

Crédito: Nasa/Unsplash

Avaliar a pandemia pela perspectiva das emissões de gases de efeito estufa reforça a dimensão da crise humanitária e econômica que estamos atravessando. Desde o início da revolução industrial, as emissões antropogênicas apresentaram um crescimento vertiginoso. Foram registradas reduções globais anuais apenas em decorrência da gripe espanhola, entre 1918 e 1919, em períodos de grandes guerras e eventos geopolíticos como a queda da União Soviética. Ou em decorrência de amplas crises econômicas, como a grande depressão, em 1929, a crise do petróleo e a crise financeira de 2008.

Nenhuma destas reduções chegou a 3% das emissões de gases de efeito estufa globais, enquanto as reduções provocadas pela atual pandemia chegam a 6% das emissões globais. Apenas a China, país com maior contribuição, apresenta atualmente emissões 25% menores do que no período pré-pandemia.

Mas de acordo com o professor Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), “Essa queda de 6% nas emissões, infelizmente, é (apenas) uma boa notícia a curto prazo”. Historicamente, os períodos de declínio das emissões globais são seguidos imediatamente por índices de crescimento das emissões. E os gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, permanecem por séculos na atmosfera e nos oceanos comprometendo as mudanças climáticas, e relativizando as reduções globais anuais.

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O planeta já registra um aumento de 1.1C na temperatura global, se comparado com os índices pré-industriais. A previsão para 2020 era de um aumento de 1%, sobre dos índices de 2019, reforçando a tendência de crescimento contínuo das emissões. Ou seja, para mantermos o aumento da temperatura do planeta abaixo de 1,5C até o ano de 2030, atendendo ao Acordo de Paris, será preciso implementar mudanças estruturais em nossa sociedade.

A pandemia está nos conduzindo a experimentar algumas mudanças comportamentais na direção de uma economia de baixo carbono. Estamos otimizando percursos, reduzindo viagens, intensificando o ensino à distância e trabalhando a partir de casa. Ou seja, estamos tendo a oportunidade de experimentar algumas das mudanças estruturais necessárias para mitigar as mudanças climáticas. Nos resta saber se serão mudanças duradouras ou uma oportunidade perdida no enfrentamento a uma crise climática, cujas consequências poderão ser ainda mais intensas e desafiadoras do que as enfrentadas atualmente.

Mariana Malufe Spignardi
Formada em Liderança para a Sustentabilidade, Harvard University; Gestão Responsável para a Sustentabilidade, Fundação Dom Cabral e especialista em Conforto Ambiental e Conservação de Energia, USP. É mestre pela Architectural Association School of Architecture, mestre pela USP e Urbanista pela PUC Campinas. É membro da Comissão Estadual de São Paulo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, do Conselho Gestor da Secretaria Estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo e professora em diversas instituições de ensino. O reconhecimento de seu trabalho inclui o Prêmio Destaque da Odebrecht Realizações Imobiliárias, 2013; O Prêmio ADEMI RJ, 2014 - meio ambiente; A primeira certificação para bairros LEED ND - Leadership in Energy and Environmental Design Neighborhood Development na América Latina e a primeira certificação AQUA Bairros e Loteamentos do Rio de Janeiro.

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