Arquitetura e Mercado

Ventiladas e ligadas à rua, galerias podem ser o futuro dos shoppings no pós-pandemia

Galeria do Rock, no centro de São Paulo (@Gustavo Basso)

As galerias do Centro de São Paulo são locais icônicos, sobrevivem e vivem nas histórias, nas lembranças e na lista de passeios favoritos de milhares de pessoas que moram ou visitam a capital paulista. Seja pela arquitetura, pelas lojas ou pelos cafés e restaurantes, cada uma das galerias possui uma identidade própria, com valor arquitetônico e histórico. Com o avanço da pandemia, elas também são apontadas como os espaços comerciais com maior potencial de retomada, especialmente na comparação com os shoppings centers. Por oferecerem ventilação, espaços abertos alternados e ligação com a rua, podem sobreviver após a crise com fôlego maior.

É a avaliação da antropóloga e historiadora Paula Janovitch, especialista em galerias. Segundo ela, embora esses locais sempre tenham sido citados como a origem dos shoppings, mantêm grande vantagem em relação a eles. “A galeria tem mais potencial para voltar na pós pandemia, pelo potencial de ventilação, pela ligação direta com a rua. A chance é maior do que a do shopping. Tenho certeza de que as galerias vão voltar depois da crise”, avalia.

Os shopping centers que começaram a reabrir as portas em maio registram queda entre 50% a 80% nas vendas, sendo as lojas de vestuário, calçados, acessórios e perfumaria as mais atingidas, aponta reportagem do Valor Econômico. Planos de retomada incluem controle no número de frequentadores, mudança nos dutos de ar condicionado, protolocos de higiene e renegociação dos contratos de locação com lojistas, mas a reativação ainda não tem data para acontecer. É nesse contexto que as galerias podem sair na frente. Sua arquitetura permite controlar melhor o tempo de permanência dos clientes e ainda garante a ventilação natural.

Centro de São Paulo

Paula Janovitch tem uma ligação especial com as galerias do Centro de São Paulo. Além de frequentadora da região, já que trabalha há muitos anos no Departamento de Patrimônio Histórico (DPH), foi esse vínculo no trabalho que a levou a mergulhar profundamente nas galerias do entorno. E essa história começa em 2007, quando o DPH lançou uma coleção com os dez melhores percursos históricos feito a pé pela cidade. Foi quando ela teve a ideia de levar pessoas a atravessar o Centro pelas galerias.

Selecionou então oito galerias, onde uma começava ou terminava na seguinte, e desenhou um percurso que poderia ser feito até mesmo sob chuva. “Era tudo por dentro dos prédios, observando a arquitetura, contando a história daqueles locais”, relembra Paula. Até então, a historiadora nunca havia pensado em lidar com pessoas. E aconteceu que ela se apaixonou por reviver o Centro ao lado de pessoas que não conhecia, repassando seu conhecimento durante uma caminhada. “Fui construindo toda minha carreira em cima de São Paulo, da cultura, do imaginário, ligado ao espaço e à história da cidade. Mas não imaginava que gostaria tanto de falar sobre isso em um percurso”, conta.

Com a sua experiência na história da arquitetura da cidade, Paula acabou descobrindo dados inusitados sobre as galerias, como o fato de terem recebido influência de arquitetos estrangeiros, vindos para o Brasil após a Primeira Guerra Mundial sem diploma. Eles eram contratados com salários inferiores, mas seus projetos eram modernos para a época, com influências do mundo todo. Há clássicos nas galerias do Centro, como o mosaico de azulejos de Burle Marx na Galeria 66. Ou a experimentação de Cândido Portinari em murais e a emblemática e discutível participação de Oscar Niemeyer na Galeria Califórnia – ele começou, mas o projeto foi alterado e ele não reconheceu.

Para a historiadora, a pandemia paralisou o movimento de descida da Augusta, da vida cultural do alto indo para o Centro. Ela classifica a repaginação das galerias, com a ocupação de artistas, estúdios e arquitetos um movimento de valorização. “Toda essa vida no espaço público da cidade de São Paulo, seja no Minhocão, na Avenida Paulista, ou no centro, mudou a política conservadora de classe média. Pobre sempre esteve na rua. Mas essa mesma rua começou a pouco tempo a ser interessante para a classe média”, avalia.

Assim como as outras áreas de comércio, as galerias têm sofrido com a pandemia de coronavírus, que forçou o fechamento do comércio a partir de 24 março. “Quando começou a quarentena, estava na galeria da Sete de Abril, perto da Biblioteca Mário De Andrade. Nesse dia, um café era inaugurado na esquina e conversava com o síndico como poderíamos valorizar o local. Fico agora pensado o que teria acontecido ao café, aberto no dia que tudo parou”, conta.

Uma reportagem do dia 23 de abril, publicada pela Folha de S.Paulo, apontou para uma triste realidade. Segundo a matéria, cerca de 30 estabelecimentos fecharam as portas na Galeria do Rock, famosa pelos artigos e discos do estilo musical, provocando aproximadamente 400 demissões. “Desde que comecei a frequentar, nos anos 90, vejo os mesmos rostos, de gente que sempre trabalhou lá. A Galeria faz parte da minha vida. Tenho um filho de cinco anos e o primeiro passeio que fiz com ele foi lá”, lamenta Rodrigo Freua, 38 anos, farmacêutico bioquímico especializado em regulação.

A história de Freua se mistura à da galeria desde a adolescência, onde ia buscar referências musicais, roupas e artigos de rock. Durante os últimos anos, viu os andares se transformando, mudando o perfil e deixando de ser exclusivamente do rock, passando a ter lojas especializadas em skate, roupas hip hop e artigos de outros estilos. Quanto ao futuro da galeria, Freua ainda não sabe como a rotina voltará à normalidade, mas defende a valorização dos pequenos comerciantes. “Acredito que as pessoas devam incentivar os pequenos comércios, deixar de comprar dos grandes para dar esperança para essas lojas que sobreviveram por tanto tempo nas galerias”, afirma.

Juliana Gattone
Jornalista, com MBA em Gestão de Pessoas, tem passagem pelos principais setores - poder público, privado e imprensa. Atua há 24 anos escrevendo sobre política e economia, além de desenvolver projetos de comunicação e conteúdo estratégico para diversas áreas (lazer, saúde, consumo, construção civil e cultura). Integrou as redações do Diário do Grande ABC e do Jornal da Tarde (Grupo Estado), conduziu a Secretaria de Comunicação de Santo André e gerenciou equipes nas maiores agências de Relações Públicas, como Máquina Cohn&Wolfe, CDN e Inner Voice Comunicação Essencial.

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